sexta-feira, 19 de setembro de 2008

O Mito Sócrates







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O grande pensador Sócrates... Não. O príncipe grego da sabedoria, Sócrates...Não. Mestre dos grandes filósofos e de toda a filosofia, Sócrates foi...Não. Esquece. Sócrates era a Filosofia. Não tem essa, não rola mesmo mandar esse papo de grande pensador, figura ilustre, divisor de águas... Eu tenho uma regra, aqui postulada sem delongas: passou de dois mil anos o cara já é um mito, não é como o Mao Tse Tung ou Dom Pedro I, o cara não é mais um “homem”, o cara é um mito, uma alegoria que foi contada de geração em geração e foi parar na Wikipédia. Alguém de que se fala, mas sem muita clareza. Uma tradição manifesta em um personagem, seria melhor assim. Minha tese não tem provas, mas o convite ainda está aberto.



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Sócrates é a Filosofia por que representa em seus atos, contados por vários outros que não ele, as atitudes de um amigo da sabedoria, não bem como um homem que pratica a sabedoria, mas uma sabedoria que chega aos homens como uma maneira de re-interpretação do mundo. A Maiêutica não é um parto de idéias à toa, parir uma idéia é tirá-la de dentro de si, chegar por si mesmo até si mesmo. Reinterpretar é um esforço tremendo, algo que não depende nem nas menores porcentagens de um método aprendido ou algo parecido. Sócrates não é o parteiro, a parteira é a filosofia, o exercício exaustivo de se reinventar, de reinventar o mundo a partir daquilo que não se vê. Afinal, Sócrates vê fantasmas, a filosofia trata do invisível, do que é difícil de se notar, o que necessita de bastante imaginação. Assim, Fedro e Glauco lidam com a filosofia; talvez possamos dizer que são filósofos. Aprendem, pelo esforço de escutar o chato Sócrates, que a vida pode apresentar mais do que aquilo que factualmente percebemos e aceitamos. Quanto à prática de Sócrates, podemos notar que não contém nada de exemplar para os outros gregos. Já dizia Hanna Arendt que o afã pedagógico é todinho do discípulo Platão. Sócrates não tem interesse em ensinar ninguém. Ele é como um avatar, uma representação não de um homem que encarna a filosofia, mas da própria. Sócrates é uma grande alegoria. Um bufão, como diria Nietzsche, que encarna a busca pelas verdades essenciais da realidade, irônico, se faz de ignorante, brinca com as inteligências, finge, ludibria, toma caminhos alternativos para chegar ao mesmo, entristece as pessoas mas só algumas ele consegue mudar, e logo depois as abandona. Sócrates desperta paixões em pessoas que ignoram sua própria ignorância, como Alcebíades, tal como a filosofia desperta paixões em tolos prepotentes hoje em dia. E também desperta fúria e desprezo... Mas veremos isso adiante.

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Sócrates não fazia nada o dia inteiro a não ser chatear algumas pessoas e ir a festas VIP, como a do Banquete. Ficava ás vezes horas a fio parado em pé olhando para o mesmo lugar, apenas “filosofando”. Não há, depois de Sócrates, quem tivesse feito como ele, apesar de termos muitos loucos excêntricos, como Pirro. Que é isso? A Filosofia não vai a festas VIP...Está bem, mas não precisa seguir ao pé da letra, o mito tem um contexto e tudo o mais... E de fato alguém conheceu esse cara. Mas como ele é apresentado para gente é outra coisa. Falar e pensar em Sócrates é pensar em filosofia, é pensar em filosofar. E isso não é seguir o exemplo de Sócrates, de jeito nenhum, e nem nunca foi, acredito, mas sim, é uma alegoria para a própria filosofia, o movimento de pensar o óbvio, de duvidar do certo, de clarificar o obscuro e falar do invisível. Sócrates representa esse movimento, mas não apresenta nenhuma ética ou método. O próprio buscar uma ética é o que a figura de Sócrates é, enquanto Filosofia, com letra maiúscula mesmo.



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Entendamos melhor: O “mito” de Sócrates é tão tomado pela filosofia que não podemos caracterizá-lo como simplesmente um personagem, mas um conceito que se faz presente. O agir de Sócrates é como o agir de uma divindade, pois não inspira imitações individualizadas, mas apresenta a singularidade do que é, e a necessidade de continuar sendo através do seu contínuo fazer. Não devemos olhar Sócrates como um heróico exemplo de vida, mas como um modo de ser muito próprio do homem, a saber, aquele que observa o mundo de forma não-factual, aquele modo que só se dá no ócio e na perplexidade, não uma doutrina de bem-viver, mas como o desenvolvimento de um pathos que pode tomar o homem e o trabalho da razão que surge a partir daí e muda o sentido das coisas do mundo. Sua manifestação a nós não pode ser outra que não aquela que chama para si mesma, que convida a ser atualizada por aquele que a apreende. Que então pensemos nele, já que usei o termo divindade, como se fossemos um grego que se atesse à figura de Zeus e, diferente de uma figura histórica exemplar, vislumbra-se nesse simples elo com o passado a sua própria vida, e na figura de um Zeus episódico uma potência ativa agindo sobre ele no mundo que o rodeia naquele momento. Sócrates poderia ser um Daimon, todo ele, e que não pode falar-nos de outro jeito que não seja convidando, seduzindo com um convite a ser. Não aprendemos com os atos de Sócrates, mas vislumbramos a essência da filosofia . A maiêutica Socrática descrita em um dicionário filosófico? Assusta-me: ler Sócrates parindo a idéia, ler a Filosofia parindo uma idéia, não é estranho que possa ser um método? Não é mais estranho que possa ser um método grego? O que chamamos de filosofia, seja moderna, se for contemporânea, fosse medieval, antiga, podemos realmente distinguir de Sócrates? Nem sequer essencialmente, não é isso que quero dizer, Sócrates já é essencialmente ele mesmo sempre, a Filosofia já é essencialmente ela mesma, e isso não é nada demais, é um conhecimento antigo, falado, feito, conhecido afinal, tal qual o filósofo grego é. Olhar para Sócrates como um personagem histórico é fazer dele uma interpretação plausível, mas, como nominaria Mircea Eliade, profana. Como se falássemos “de fora” do contexto de uma figura mitológica e o modo como afeta seus participantes, seus ouvintes, a área de pessoas que é por ela devidamente afetada. Não estou querendo dizer que Sócrates é uma divindade panteísta, pois representa muito mais claramente um conceito, engloba datas específicas e se encontra em relação com personagens muito mais nítidos. De fato, Sócrates é muito mais “psicológico” que as divindades gregas e seus personagens; localizá-lo em uma posição média entre a personagem mítica e a personagem histórica seria o melhor a ser feito. Sócrates, assim, seria um primeiro corte na história do pensamento filosófico-religioso, um personagem de teor análogo as mulheres complexadas de Eurípedes e inaugurador de um processo que culminaria no messias cristão, posicionado no mesmo lugar que o pensador grego. Voltaremos a isso mais tarde.




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Quem fala de Sócrates não fala de Filosofia, mas na Filosofia. Esse é o interessante da voz de um mito, pois no seu discurso não conta com a prudência da ciência dos fatos e a certeza do certo acontecido, mas faz presente algo que deve ser feito presente, como a presença divina, que não pode ser conhecida se não for como revelação, revelação de uma realidade essencial, e quando mito nosso, revelação do atual, do que está acontecendo agora e sempre aconteceu, reconhecimento do nosso mundo, da nossa vida.
Faltam dois pontos a se falar: os sofistas e a cicuta. Se, no mito de Sócrates, os sofistas são antagonistas, e Sócrates é a Filosofia, é certo apontá-los como não-filósofos? E a cicuta que Sócrates, herói trágico e marginal, voluntariamente escolhe beber frente à incompreensão do povo grego, será carregada de algum significado especial quando pensamos no Mito Sócrates?



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Quero usar novamente a noção de sagrado e profano do estudioso das religiões Mircea Eliade. Para tanto, me vejo voluptuosamente obrigado a fazer uma pequena interpretação desses conceitos importantes da antropologia da religião.
Na obra O Sagrado e o profano, Mircea Eliade interpreta o homem religioso como dentro de um modo de ser próprio, que difere do modo de ser não-religioso. Este homem, conduzido por Eliade aos confins primordiais da história da civilização, vive dentro de um mundo que é todo sagrado. Mas esse mundo não se dá imediatamente como real ao homem. O mundo sagrado, o cosmos que abriga o homem frente à ação do caos exterior, está por detrás de um não-mundo que é aparentemente homogêneo, onde todas as coisas estão qualitativamente equalizadas e tudo tem o mesmo valor, o que, em outras palavras, é um mundo sem direção, sem centro, é um mundo infinito (já nos disse um matemático que em um conjunto infinito, cada termo está em referência a todos os outros termos, que são inumeráveis). O homem, na possibilidade de fazer arte (construir obras, criar conhecimentos) deve delimitar um horizonte, um limite que separa seu fazer do mundo dado. Aí reside a criação do cosmos, o mundo finito e delimitado onde a razão humana pode habitar, daí a necessidade da teleologia do homem religioso. Assim, o mundo se torna dividido e as coisas em sua multiplicidade se diferenciam qualitativamente. O mundo sagrado é um mundo heterogêneo, de valores localizados de forma inferior e superior, onde o sagrado está sempre presente, mas nunca se mostra por inteiro, pois apenas manifesta-se (no sentido heideggeriano essa palavra significa aquilo que irradia uma força outra; mostra-se em si mesmo, mas esse mostrar é também velador, pois ele é essencialmente índice, mostrar outra coisa que não ele, mostra algo que não se mostra por si).
A melhor maneira de se definir o profano para Mircea Eliade é como o não-sagrado. Não estamos aqui falando da dicotomia bem e mal, certo e errado, moral e imoral, pois só posteriormente se colocarão, dentro do modo de ser sagrado, essas denominações a uma dualidade que é originalmente o puro antagonismo entre os dois modos de ser no mundo. O homem profano não está no âmbito sagrado, relativiza as coisas e encontra ordem nelas por pura convenção, como se o sentido de algo não disse-se respeito ao algo em referência, mas ao próprio sentido. Sendo assim, seria um sentido sem conteúdo, que pode colocar-se em referência á qualquer coisa (relatividade da essência),em infinitas relações. Talvez pecando pela simplicidade, posso colocar os dois modos de ser, quanto ao uso, o manuseio, o lidar com a verdade, como distintos exatamente pelo modo como a interpretam. No sagrado, o postulado que guia a razão será transcendente e revelado pela fé, ou seja, revelado enquanto mistério oculto nivelador do que se mostra, do que aparece. No profano temos uma instrumentalização da fé numa necessidade lógica. Será um desmascaramento da fé como princípio da razão, a fé como uma capacidade sintética da imaginação que trabalha com o entendimento para criar o sentido do mundo. A razão “sagrada” é dada pelos deuses, a razão “profana” é um instrumento dos homens para conduzir a fala à realidade das leis lógicas.
Aqui encerramos uma volta que foi até os estudos sociais da ontologia de Mircea Eliade e culmina na divergência entre Sócrates e os sofistas. Já podemos perceber, não? Já se tornou visível a todos? Não parece devidamente ilustrado que Sócrates é sagrado e os sofistas são profanos? O difícil é dizer por que mesmo assim os sofistas não são não-filósofos. Ufa! Tentarei superar mais esse desafio que a escrita me impõe.



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Há dois tipos de sofistas: os sofistas caricaturais de Platão e os sofistas que podemos tentar adivinhar por nós mesmos através da historiografia e dos textos que eles escreveram. Em outro texto talvez eu tentarei explicar por que não devemos imediatamente descartar as caricaturas, e como elas são importantes no dialética da filosofia. Estou tentado... Mas não, numa outra hora. Por agora reservo-me a fazer a melhor definição possível dentro de minhas capacidades. Pois formulo-a assim: Os sofistas são pseudo-filósofos pois não são “amigos da sabedoria”. Pelos diabos! Também me privo de definir a filosofia... O mal de um texto nesse caminho é que somos forçados a definir até a última palavra usada, em uma bola de neve que só pode ser vencida pela boa vontade do leitor. Que seja. Pseudo-filósofos , mas não “não-filósofos”, veja bem. Mesmo o filósofo falso ainda está dentro do campo da filosofia. O sofista não é amigo da sabedoria pois sabe que vive em um mundo profano. No mundo profano as coisa são relativas e transitórias, o sentido é parasita e controlável, o saber é comerciável e comerciante. Sua amizade, ele sabe bem, é falsa. Não cai nos contos dos deuses, mas pode usá-los se for necessário. Não pinto o sofista como um vilão, por favor, mas como um técnico. Sua técnica, seu poder, seu limite e sua dinâmica é o discurso. O “grande lance” da pseudofilosofia do sofista é a teleologia final de sua técnica. Para quê, afinal, ele que domina a verdade, que procura controlar a finalidade, usa sua técnica? O mundo profano não tem sentido, e é por isso que para o homem religioso ele é um não-mundo. Para o sofista, sua técnica é usada para o atual. Ele, como não vislumbra uma finalidade existencial, um estágio heterogêneo qualitativamente superior, vive para o atual, para o presente e é forçado a jogar um jogo em que as coisas são essenciais, um jogo de pseudofilosofia, onde o mundo que se apresenta é sagrado e vale a pena ser vivido por pelo menos esse instante (pois se não fosse, que adiantaria ao sofista sua técnica? Não consigo imaginar um homem que não viva sua vida sem imaginar um sentido para ela, por mais ínfimo significado que tenha. Devaneio até se não seria esse o único postulado verdadeiro... Ha! Caio na armadilha gnosiológica, ponto fraco de todo aquele que fala mais do que devia!). De qualquer modo, não podemos dizer que não fazem filosofia... Está lá, presente na figura deles, a reflexão socrática! Sim! É como o embate dos samurais, onde os guerreiros tem um relação quase simbiótica um com o outro e medem suas habilidades, podemos até dizer suas essências (a morte do adversário é de certo modo a morte de si mesmo), nesse embate trágico. Afinal, os sofistas versam sobre o mundo. E tem idéias muito lúcidas. São filósofos sim, não há dúvida, partem do mesmo princípio de Sócrates, vêem o invisível, e não há motivo para serem os “inimigos” do filósofo ateniense se não por disputarem o mesmo campo. Falam a mesma língua que Sócrates ao contrário, por exemplo, de uma ciência histórico-especulativa, que trata do Sócrates personagem histórico e que, em absoluto, não fala sequer a mesma língua desse Sócrates de que falamos. É como um psicólogo Jungiano tentando entender o complexo de Édipo, ou um mercenário materialista duelando com um samurai feudal. Nem na Marvel™ isso dava certo.



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Já vi que me estendi demais... Voltemo-nos agora para o sagrado Sócrates. No Górgias de Platão, Sócrates pergunta ao personagem-título de que trata a arte dele. Arte, é preciso salientar, tem aqui o sentido de poder (dynamis, acho que esse é o correlato grego), que se relaciona também com orizon, horizonte, limite, extensão talvez, e que, por fim, relaciona-se com essência e desvelamento. Ora, Górgias responde que sua arte é o logos, a fala. Voltemos ao glossário de traduções Heidegger™: “logos é primordialmente fala, e não razão ou discurso racional, juízo, proporção”... Pelo menos não agora. O sentido original de logos é fala, ou seja, fazer ver e deixar aparecer algo que se mostra em si mesmo, algo que vêm à luz. Ainda acompanhando o Ser e Tempo de Heidegger, encaminhemos nossa atenção à luz do sentido grego primordial de verdadeiro: aquilo que imediata e simplesmente se mostra aos sentidos. Com isso temos que Górgias anuncia a sua arte como sendo a arte de falar, de contar aquilo que os sentidos nos mostram, de tornar comum a verdade dos sentidos do sujeito. É um saber comunicar aquilo que vem aos sentidos, a verdade. Esse é o poder da arte de Górgias. Não mais nos prenderemos a esse texto, até por que só o li até essa parte. Já estamos satisfeitos... Com isso, temos que a arte de Górgias é a mais essencial das artes, pois fala da verdade e da essência de todas as outras coisas, incluindo as outras artes. Na mosca, amigos: é a mesma pretensão de Sócrates. Singela preocupação com a essência das coisas, desde a água de Tales até o nosso avatar da Filosofia.
Mas nele, que não foi o primeiro filósofo, vemos a filosofia tomar a forma que tem hoje, e isso é o reflexo óbvio do embate com os sofistas. A arte dos sofistas é a mesma de Sócrates, falar sobre a verdade, mas a verdade, o conteúdo das duas artes, é diferente, e eis que se apresenta a divergência entre os pólos. Ambos são filósofos, mas a figura de Sócrates representa uma adaptação da intuição mítica do mundo aos métodos lógicos de construção de discursos. Explicitarei melhor: a verdade transcendental de que se ocupa Sócrates, manipulada pela rígida concepção racional do discurso predominante na era dos sofistas e da democracia ateniense, deu luz a uma nova noção de mundo, onde o modo de ser sagrado se uniu ao profano como nunca antes. A revelação de Deus e do mundo sagrado se dá com Sócrates não mais pela simples afecção do que aparece aos sentidos (lembre-se da noção primordial grega de verdade) mas pelo trabalho da razão. Conhecimento de Deus é um bom termo. A transcendência é um trabalho, um trabalho ascético. Sacrifício, compaixão, liberdade... Essas questões da filosofia e da religião vão surgir da cicatriz do corte socrático. A todo o momento me vem na cabeça o cristianismo, com a figura de Jesus a fazer um outro corte, talvez na mesma ferida antes deixada por Sócrates. A ascese, a disciplina, a felicidade eterna em um outro mundo são temas localizados na interseção entre o paganismos platônico e a moral cristã. Temas que serão reconduzidos e reavaliados até tempos futuros... Chegando enfim em uma época como a nossa, eminentemente profana. Parece-me agora, revisto, que essa visão é por demais “ideal”, onde a história da civilização começa com o sagrado e conduz para o profano. Mas logo depois penso que esse tipo de visão ideal me soa estranho exatamente por que se assemelha com tantas outras teorias ideais que soçobraram pelos tempos e chegaram até mim. E noto enfim que minha época cansou-se dos ideais, que me vejo refletido em repetições... E a teoria ganha força novamente.



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Sobrou-me explicar a cicuta. No mito de Sócrates (a essas tantas do texto ouso falar desse jeito) o filósofo morre voluntariamente bebendo do veneno chamado cicuta. Dedica um galo a Asclépio e aspira, enfim. Tal qual Cristo, sobrevive do esquecimento nas palavras de seus discípulos (podem deixar que eu não vou inventar um jeito de conciliar Sócrates com a ressurreição de Cristo no terceiro dia). Sócrates morre “vencendo”, assim dizemos. Liberta-se das dores do mundo. Na matéria ele encontra o erro, o disperso, o incompleto, e na transcendência do outro mundo, dada pela vida virtuosa seguida da morte, encontra a paz da completude, da união com o cosmos sagrado, com as idéias verdadeiras e a essência absoluta. Essa essência só pode ser conhecida na morte, no abandono do corpo, e no mundo sensível só se dá de forma parcial e manifesta (o que já é suficiente para inspirar a razão). Que seria então Sócrates, enquanto Filosofia, tendo em vista tudo o que foi exposto, ao tomar sua cicuta e transcender em seguida? A pergunta, na verdade, que em todo o texto tentei fugir, desde o seu início, essa pergunta que me assombra, que me abisma como um fantasma, chega de volta e finalmente, e me coloca em um beco sem saída. “Que é Filosofia?”, brada o maldito espectro. Filosofia é, demônio de infinitas cabeças, um termo de infinitos significados, um para cada cabeça tua. Me ponho a responder fenomenologicamente, e exumo o termo grego que é o mais simples e melhor a ser feito. “Amigo da sabedoria”, “amor a sabedoria” e correlatos... Isso é filosofia, um páthos (talvez um espanto, talvez um tédio, uma angústia ou uma direção natural do espírito humano) que nos coloca frente à necessidade de tomar a realidade óbvia de outra maneira. Em termos “pocket” podemos dizer que é tornar o óbvio não óbvio. Por isso amizade/amor para com a sabedoria: saber não tem nada a ver com certeza, mas sim com atitude introspectiva de tomar como próprio o outro, de tomar partido do dado, de entender o significado essencial das coisas e poder dizê-lo. É um movimento árduo de tornar desconhecido o conhecido para conhecê-lo melhor. Olha, não vai adiantar, você talvez não vá entender mesmo. Tem alguma coisa aí que entendi e outra relacionada com essa que eu não entendi, mas o que eu falei aqui eu entendi, por isso pode ser entendido. Entendeu? É por isso que eu gosto de Heidegger.


Um comentário:

Fernanda Campello disse...

Filipe,
fiquei pensando no seu texto esses dias e acabei demorando um tempo para comentar. é muito legal ver um texto empolgado sobre Sócrates (figura tão maltratada pelos nietzschianos). é legal ver um texto seu, depois de ter ouvido vc falar bastante sobre o ato de escrever. gostei, vc escreve bem. bom, ao ler o texto, fiquei pensando realmente que quando entendemos o que o sócrates significa para nós, estudantes de filosofia, entendemos o nosso próprio estudo e prática filosóficos. o sócrates-mito é um modelo que seguimos e que esperamos que os outros filósofos também sigam. mas, afinal, o que é a educação sem a mímesis?
bjs